terça-feira, 8 de junho de 2010

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O tempo é areia que escorre por entre os dedos.
E, quando damos conta, já temos um grande monte de areia junto aos pés.
E perguntamos como é possível tudo passar tão rápido.
E é quase em vão que procuramos qualquer caminho de volta ao primeiro grãozinho.

Às vezes gostaria de pedir-te que me emprestasses mais um grãozinho do teu tempo, mas não quero arriscar-me a deixar de ser de grão de areia a teus pés para me tornar numa pedra incómoda no teu sapato.

E, no entanto, é tão bom andar descalço...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Há sempre uma noite em que de mansinho fugimos de nós.
Há sempre um rasgar de algemas e um salto de dentro do sono, para acordar dentro de um sonho.
E é com um olhar e um sorriso que apagamos o mundo e tudo quanto há à nossa volta, para ficarmos mais perto do céu.
E é à lua que pedimos uma alma emprestada.
E é com estrelas que colamos os pedacinhos soltos do coração.
E é com volúpia que me deito ao lado de mim mesma.
Adormeço.
Rasgo o casulo, espreguiço as asas, bebo a luz da aurora e voo livre, de encontro à paz.

Tudo o que escrevo é para mim.
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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Há dias em que nego a tristeza.
Outros dias há em que a tristeza me nega e me toma por sua, sem pedir licença.
Faz-me acreditar que nunca serei boa em coisa nenhuma, que estou destinada a ser sempre medianamente suficiente em algumas coisas.
Sussurra-me ao ouvido que sou uma farsa e tremo de medo que os outros vejam cair a máscara que nem eu sabia ter no rosto.
E sinto-me mais um parvo alegre, do qual todos sorriem à sua tolice, de quem anda com a cabeça na Lua, a sonhar com mundos que não são seus.
Tenho ciúmes de tudo o que eu gostaria de ser e acabo por ser nada que valha a pena gostar.
E não sirvo para viver nem dentro das histórias, nem dos poemas, nem das fotografias.
E dou-me conta de que a única coisa que sei fazer é afastar de mim as pessoas de quem gosto mais.

Declaro que desisto. Do que não sei ser. Do que não sou. De mim.
Fecho o casulo e faço-me larva.

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Há sempre qualquer coisa de ti, que vive dentro de mim.
Há sempre vestígios dos teus lábios, que se alimentam da minha luz.
Há sempre traços das tuas mãos, que fazem das sombras a casa onde habito.
Há sempre um rio que não desagua, uma melodia desafinada, uma pintura vazia, um novelo de nós que não se desatam, a metade de um abraço que fica sempre por dar.
Há sempre o teu eco, que tece o meu horizonte.

Tudo o que eu escrevo, é sempre para ti.
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sexta-feira, 7 de maio de 2010

Como o rouxinol abracei em meu peito o espinho de uma rosa.
E pedi ao coração que largasse o que há em vão.

Como o rouxinol cantei noite inteira, até perder a voz.
E pedi ao coração que deixasse o espinho entrar mais fundo.

Mas do coração não fluiu sangue, nem água, nem lágrimas, nem nada.

E, quando o horizonte se fez manhã, a rosa floresceu murcha, fez-se pó e fez-se vento.
(Só no coração ficou o espinho, junto aos outros que por lá habitam.)
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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Partiu e ninguém sentiu a sua falta.
Não houve abraços, nem beijos demorados, nem uma lágrima marota no canto do olho.
Levou na mala só os braços vazios.

Saiu no alvor do dia, sem mapa nem bússula, guiada pelo ritmo dos seus pés em movimento.
Atirou as chaves ao rio e a mala aos pardais.

Trocou as horas por flores e das flores fez palavras.
Semeou as palavras ao vento e do vento colheu o silêncio.
Do silêncio nasceu a música.
Na música enlaçou-se a dança.
E dançou... dançou... e dançou... até adormecer embalada num rodopio.

Acordou, espreguiçou-se, esfregou os olhos e abriu a janela.
E deu-se conta de que nem sequer chegara a partir.


A manhã é sempre mais bela.


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Pergunto ao espelho:
- Que fazer quando se gosta sem ter a noção de que o amor tem fim?
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domingo, 2 de maio de 2010

Pergunta-me a Solidão:

- Que há lá fora que não tenhas aqui dentro?
É mais fácil viver dentro de um livro de histórias.
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"Qual dos dois ganhará a luta no teu coração?
- Aquele que eu alimente."

Lição nº zeromil zerocentos e zerenta e zero:

Não adianta, não vale a pena, é inútil, lamentar e pedir desculpas quando se sabe que nada vai mudar.
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sábado, 1 de maio de 2010

A Solidão pousou as suas pesadas malas, vazias como as levara.
Bebeu-me as lágrimas e os olhos a longos tragos.
E abriu uma gaveta e plantou lá nascentes e ribeiros e rios e mares.
Mandou-me ir na corrente.

Mas no meu mar revolto, desenhei as ondas ao contrário, roubei-lhes a espuma e escondi-a no bolso, soprei-as de encontro ao horizonte e tapei a luz do sol com um castelo de areia.

E, confusos, vieram os peixes todos à tona, as algas, os corais, conchas e pedrinhas coloridas, os caranguejos e as tartarugas.
E cercaram-me as gaivotas, batendo as asas descontentes com tamanho alvoroço.
(Mas, ao verem tanto peixe, agradeceram-me o almoço!)

E eu pirei-me de mansinho,
mais vale voltar para o meu cantinho,
que eu sou marinheira de alguidar,
E não sei ler o mar!

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sexta-feira, 30 de abril de 2010


Limpei o pó, varri o chão e as teias de aranha.
Enchi as jarras de flores, as mais bonitas do jardim.
Fiz assados, bolos e tartes.
Vesti o vestido vermelho, pintei as unhas e os lábios.
Pus na mesa a toalha de linho e abri o vinho que há tanto tempo te esperava.
...
Fecho as cortinas e apago a luz.
Sê bem-vinda Solidão, de regresso à tua casa.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

"E ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia"

Al Berto

segunda-feira, 17 de novembro de 2008


Canção dos abraços

"São dois braços, são dois braços
servem pra dar um abraço
assim como quarto braços
servem para dar dois abraços

E assim por aí fora
até que quando for a hora
vão ser tantos os abraços
que não vão chegar os braços

Vão ser tantos os abraços
que não vão chegar os braços
prós abraços "

Sérgio Godinho
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terça-feira, 11 de novembro de 2008


"Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que junca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta. "

Aldous Huxley

Que bonitas são as coisas simples!

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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008



"De olhos na falésia, espera pelo vento,
ele dá-te a direcção."

Vou. Parto sem mapas, sigo o vento. Perco a conta às viagens e são sempre de menos. Perco-me nas idas e nos regresos e já não sei qual é a partida e qual é a chegada, fundem-se e confundem-se os pontos, as linhas, os caminhos e os horizontes. Não sei onde principio e onde me torno finita. Que importam as definições? Quero ser sem definição. Às vezes quero até nem existir, porque o que não existe não tem fim. As partidas são regressos e os regressos são ponte para nova estrada. Que pena não ter perdido este autocarro... Muitos outros tenho à espera para perder, só para meu prazer.
Quando volto? Volto hoje, sempre hoje.

Gosto da espuma branca das ondas, quando se desfazem na palma de meus pés descalços.
E gosto quando o mar puxa de novo para si a água das ondas desfeitas e a areia foge debaixo de meus pés.


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domingo, 2 de novembro de 2008



website stats "Se eu largar eu sinto a sua falta
Se eu agarro ela perde a cor
Ela não é dos meus dedos
é dos meus medos
e faço-me passar por uma flor..."

segunda-feira, 13 de outubro de 2008


Pirata
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.
                        Sophia de Mello Breyner
Hoje o mar és tu.
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domingo, 12 de outubro de 2008


Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.
Albert Einstein
A
b
s
u
r
d
e
m
o
s

a vida
de leste
a oeste.
Bernardo Soares

quarta-feira, 16 de julho de 2008



"De profundis amamus

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso"
Mário Cesariny

quinta-feira, 29 de maio de 2008


"Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."

Cecilia Meireles


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terça-feira, 1 de abril de 2008



Fecho os olhos.
Gosto de caminhar assim, de olhos fechados, a teu lado.
Abraço a tua mão, bússola na mia mão.
Os meus passos percorrendo o mapa de teus passos.
De olhos fechados, com a mia mão na tua, sigo o trilho da tua respiração por todas as ruas de todas as terras, faço todas as viagens possíveis e impossíveis de imaginar nas linhas dos teus dedos..
De olhos fechados deixo-me voar, à deriva, no vento que me afaga o rosto e que me leva para além da atmosfera terrestre..
De olhos fechados sinto à mia volta o teu perfume de espuma das ondas de todos os mares, misturada com sal e areia fina.. E embarcamos no nosso barquinho à vela, à deriva pelo azul de nós..
Abro os olhos... e vejo-te à mia volta...

Vejo muito mais de olhos fechados do que todos os olhos que olham..



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domingo, 17 de fevereiro de 2008


“Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe.
Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras.
Submetem-nos, subjugam-nos.
Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas.
São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem.
Mas há momentos em que cada um redobra de proporções,
há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade.
Há momentos em que cada um grita:
Eu não vivi! Eu não vivi! Eu não vivi!
Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo.
A vida é só isto? “

Raul Brandão
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sábado, 16 de fevereiro de 2008

"Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de nós

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008


Mar

Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

Vinicius de Moraes

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Diamond day


Just another diamond day
Just a blade of grass
Just another bale of hay
And the horses pass.

Just another field to plough
Just a grain of wheat
Just a sack of seed to sow
And the children eat.

Just another life to live
Just a word to say
Just another love to give
And a diamond day

Vashti Bunyan

domingo, 20 de janeiro de 2008

He remembers forgotten beauty
      "When my arms wrap you round I press
      My heart upon the loveliness
      That has long faded from the world;
      The jewelled crowns that kings have hurled
      In shadowy pools, when armies fled;
      The love-tales wrought with silken thread
      By dreaming ladies upon cloth
      That has made fat the murderous moth;
      The roses that of old time were
      Woven by ladies in their hair,
      The dew-cold lilies ladies bore
      Through many a sacred corridor
      Where such grey clouds of incense rose
      That only God's eyes did not close:
      For that pale breast and lingering hand
      Come from a more dream-heavy land,
      A more dream-heavy hour than this;
      And when you sigh from kiss to kiss
      I hear white Beauty sighing, too,
      For hours when all must fade like dew,
      But flame on flame, and deep on deep,
      Throne over throne where in half sleep,
      Their swords upon their iron knees,
      Brood her high lonely mysteries."
W. B. Yeats

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

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" O meu amor por ti já não é uma palavra:
Nunca o foi
É um osso por dentro.
Uma forma de o sangue chegar aos gestos
Com um ritmo de flores.
Outra lua não tenho
Que não seja a tua.
E outra noite não quero
Que não seja a tua noite.
Eu coleccionarei os teus morcegos:
Farei deles estrelas ao contrário. "